a. Deus Incompreensível e, Contudo, Cognoscível
A igreja cristã confessa, por um lado, que Deus é incompreensível, mas também, por outro lado, que Ele pode ser conhecido e que conhecê-lo é um requisito absoluto para a salvação (Jó 11:7; Is 40:18; Jo 17:3; I Jo 5:20).
Os escolásticos sustentavam que não sabemos o que Deus é em seu Ser essencial, mas podemos saber algo da Sua natureza, daquilo que Ele é para nós, como Ele se revela em seus atributos divinos.
Já os Reformadores, embora concordando em linhas gerais com os escolásticos, rejeitaram a idéia de que é possível adquirir real conhecimento de Deus pela razão humana desajudada, partindo tão somente da revelação geral. Para Calvino, Deus, nas profundezas do seu ser, é insondável. “Sua essência”, diz ele, ”é incompreensível; desse modo, Sua divindade escapa totalmente aos sentidos humanos”. Os Reformadores não negam que o homem possa aprender alguma coisa da natureza de Deus por meio da Sua obra criadora, mas sustentam que ele só pode adquirir verdadeiro conhecimento de Deus por meio da revelação especial, sob a influência iluminadora do Espírito Santo.
Sob a influência da teologia da imanência, de tendência panteísta, inspirada por Hegel e Schleiermacher, a transcendência de Deus é enfraquecida, ignorada ou explicitamente negada. Deus é colocado no nível do mundo, considerado menos incompreensível e é afirmada a realidade de se obter real conhecimento de Deus dentro do âmbito do ser do próprio homem, fora da revelação especial, uma vez que esta é negada.
Barth, como neo-ortodoxo, assinala que não podemos encontrar Deus nem na natureza, nem na história, nem na experiência humana de qualquer espécie, mas somente na revelação especial, que chega até nós na Bíblia.
b. A Negação da Cognoscibilidade de Deus
Geralmente essa negação se baseia nos supostos limites da faculdade cognitiva humana, segundo a qual a mente é incapaz de conhecer qualquer coisa que esteja além e por trás dos fenômenos naturais, e , portanto, é necessariamente ignorante quanto às coisas supersensoriais e divinas. Huxley foi o primeiro a aplicar àqueles que assumem esta posição, ele próprio incluído, o nome de “agnósticos”. Este não gostam de ser rotulados de ateus, desde que eles não negam absoluta,mente a existência de Deus, mas declaram que não sabem se Ele existe ou não e, mesmo que exista, não estão certos de terem algum genuíno conhecimento dele, e, em muitos casos, negam de fato que possam ter algum conhecimento real dele. Comte, pai do positivismo,era agnóstico em religião e, de acordo com seu pensamento, o homem nada pode conhecer, se não pelos fenômenos físicos e suas leis. Os seus sentidos sãos as fontes de todo verdadeiro pensamento, e ele nada pode conhecer, exceto os fenômenos que os seus sentidos apreendem.
c. Auto-Revelação, Requisito de Todo Conhecimento de Deus
c.1 Deus Transmite Conhecimento de Si Próprio ao Homem: Kuyper chama a atenção para o fato de que a teologia, como conhecimento de Deus, difere num importante ponto de todos os demais tipos de conhecimento. No estudo de todas as outras ciências, o homem se coloca acima do objeto de sua investigação e ativamente extrai dele o seu conhecimento pelo método que lhe pareça mais apropriado; mas, na teologia, ele não pode colocar-se acima, e, sim , sob o objeto do seu conhecimento. Noutras palavras, o homem só pode verdadeiramente conhecer a Deus na medida em que Este ativamente se faz conhecido. Sem a revelação divina o homem nunca seria capaz de adquirir qualquer conhecimento legítimo de Deus. Todo o nosso conhecimento de Deus é derivado da Sua auto-revelação na natureza e na Escritura.
c.2 A Revelação Geral e a Especial: A Bíblia atesta uma dupla revelação de Deus: uma revelação na natureza que nos cerca, na consciência humana, e no governo providencial do mundo (Sl 19:1,2; At 14:17; Rm 1:19,20); e uma revelação encarnada na Bíblia como Palavra de Deus (II Re 17:13; Sl 103:7; Jo 1:18; Hb 1:1,2). O Dr. Warfield afirma: “ A primeira é dirigida de modo geral a todos as criaturas inteligentes, e, portanto é acessível a todos os homens; a outra dirige-se a uma classe especial de pecadores, aos quais Deus quis tornar conhecida a Sua salvação...”. A revelação geral está arraigada na criação, e é dirigida ao homem como homem. A revelação especial está arraigada no plano da redenção de Deus, e é dirigida ao homem na qualidade de pecador, e só pode ser adequadamente compreendida e assimilada somente pela fé.
Os escolásticos afirmavam que a revelação natural fornecia os dados necessários para a construção de uma teologia natural científica pela razão humana; mas, não fornecia o conhecimento dos mistérios como os da Trindade, da encarnação, e da redenção. Este conhecimento é dado pela revelação especial. É um conhecimento não demonstrável racionalmente, mas deve ser aceito pela fé.
Os Reformadores rejeitaram o dualismo dos escolásticos a afirmarem que não criam que a razão humana tenha a capacidade para elaborar um sistema científico de teologia com base na revelação natural pura e simples, isto porque, com a entrada do pecado no mundo, a escrita de Deus na natureza ficou muito obscura, e em alguns dos assuntos mais importantes assuntos, é opaca e ilegível (Rm ). Deus para remediar esta questão, em sua revelação especial, tornou a publicar as verdades da revelação natural, e, em acréscimo a isso, Ele providenciou uma cura para a cegueira espiritual do homem na obra da regeneração e santificação, incluindo iluminação espiritual, e, assim, capacitou o homem mais uma vez a obter verdadeiro conhecimento de Deus, o conhecimento que leva consigo a segurança da vida eterna.